Macroeconomia do condomínio chamado Brasil

Elegemos um síndico novo no meu condomínio. Camarada simpático e articulado, chegou cheio de promessas de melhoria na qualidade de vida dos moradores. Montou uma academia com personal trainer, contratou jardineiro, e chegou até a construir uma sauna. Não foi difícil conseguir aprovação de cotas extras para as benfeitorias.

Percebendo a bonança, o Seu Zé da portaria resolveu pedir um aumento. Pouco tempo depois, alguns aparelhos da academia quebraram. Quando o síndico percebeu, os gastos mensais com a manutenção do condomínio já estavam maiores do que a arrecadação. Cotas extras já não estavam sendo suficiente. Era hora de convocar uma assembleia geral e pedir aprovação para aumentar a taxa de condomínio mensal. Alguns vizinhos torceram o nariz, mas foram votos vencidos pela maioria.

Infelizmente, não teve jeito. Com mais dinheiro em caixa os gastos continuaram aumentando e a popularidade do síndico diminuindo. Ele sabia que seria difícil conseguir aprovar novos aumentos. A solução foi recorrer ao banco e pegar um empréstimo. No começo até funcionou. Com o dinheiro do banco deu até para comprar um uniforme novo para o Seu Zé. Mas isso não durou muito. O dinheiro do empréstimo acabou, a dívida com os juros do empréstimo estava aumentando e a conta do condomínio não fechava. Revoltados, alguns vizinhos do bloco 3 resolveram pedir a saída do síndico e indicaram Dr. Roberto do 304 para o seu lugar. Sujeito de poucos amigos, mas com grande experiência empresarial. No seu primeiro mês como síndico, ele já mandou fechar a sauna e demitiu o personal trainer. Também renegociou e baixou os custos de outros fornecedores. Pouco tempo depois, os gastos mensais do condomínio já estavam abaixo da arrecadação mensal. E o Seu Zé, coitado, agora está acumulando a função de porteiro e jardineiro pela metade do salário anterior.

Qualquer semelhança com o seu condomínio não é mera coincidência. Qualquer semelhança com o seu país também não. Quando o William Bonner fala no Jornal Nacional sobre controle fiscal do governo e superávit (ou deficit) primário, é mais ou menos disso que ele está falando.

Assim como na sua casa, o superávit primário nada mais é do que o governo gastar menos do que arrecada (excetuando gastos com pagamentos de juros). Do contrário, temos déficit. No site do Tesouro Nacional você pode acessar planilhas com a série histórica do resultado primário do governo. Em média, a arrecadação vinha superando os gastos de 1999 até o final de 2012. A partir daí, o país passou a patinar (ou “pedalar”) e o superávit se transformou em déficit, que só cresceu nos últimos anos, chegando a valores “nunca antes vistos na história deste país” em dezembro de 2015. Para piorar a estória, com o déficit primário, acaba não sobrando dinheiro para o governo pagar os juros da dívida pública. O governo acaba tendo que emitir mais títulos públicos (aqueles do tesouro direto) como uma das principais formas de arrecadar dinheiro para pagar os juros crescentes.

E você com isso? Pergunte lá no posto Ipiranga, ou então no Guanabara. É aí que entra a tal da inflação. Todo ano o Banco Central define uma meta para a inflação, bem como sua faixa de tolerância máxima e mínima, para ajudar a nortear a situação da economia para os investidores e empresários. O problema é que com os gastos desenfreados do governo, aumenta a disponibilidade de dinheiro em circulação, e consequentemente a população passa a comprar cada vez mais. Ao longo do tempo, os preços dos produtos vão subindo e a inflação começa a se afastar da meta (lei da oferta e demanda).

Assim como o nosso saudoso “síndico”, a primeira medida do governo para tentar trazer a inflação para a meta anual é aumentar a receita através do aumento dos impostos (por exemplo, a famosa volta da CPMF). Essa medida tem resultado rápido, mas é impopular e prejudicial a longo prazo, afinal, ninguém aguenta mais impostos.

O “sindico” decide então aumentar os juros. Aquela tal de Selic que você já ouviu na CBN. Isso faz com que empresários parem de injetar dinheiro nas empresas e passem a investir, pois os ganhos com os juros passam a ser maiores do que os próprios lucros das empresas (veremos mais sobre isso no próximo post). Ao mesmo tempo, a população para de comprar, já que a taxa de juros para “tirar” aquela TV nas Casas Bahia também aumenta. Com isso, a produção da indústria cai e a moeda em circulação diminui, reduzindo a inflação. O problema é que, com o tempo, isso pode gerar sérios impactos na economia, as empresas param de produzir e o país pode entrar em recessão.

A terceira e melhor solução seria aquela que toda dona de casa já conhece: cortar custos. O governo deveria reduzir os gastos com a “máquina pública”, enxugando ministérios, cortando bolsas, equalizando os gastos com a previdência e reduzindo investimentos. O problema é que, se não construir aquela sauna nova no bloco 2, o síndico não vai conseguir os votos que precisa na próxima eleição.

Mas o que isso tem a ver com os seus investimentos? Tudo! A sua estratégia e suas escolhas de investimento devem levar em consideração a situação econômica do país no momento e as tendências da inflação e da Selic. Mas isso é assunto para o proximo post.

8 respostas em “Macroeconomia do condomínio chamado Brasil

  1. Rodrigo, deu um tilt aqui no login do WordPress e não sei se o primeiro comentário foi…

    Enfim, a analogia foi excelente, e nossa situação fiscal é mais crítica do que o mercado anda precificando. Estejamos atentos aos movimentos…

    Abraço!

    • André, realmente o comentário só apareceu 1 vez aqui para mim. Pois é, e além da situação fiscal, ainda temos todas as incertezas nesse ano de eleição, lava-jato e reformas. Obrigado por acompanhar o blog. Um abraço.

  2. Muito bacana o blog, Rodrigo! Queria ter essas analogias todas a mão na época que cursei Economia na faculdade! 🙂

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