Primeiros passos para a independência

egyptPor onde começar? Pelo começo. Lá na sua infância. Lá naquela época em que você era obrigado a decorar o tamanho da população da Papua Nova Guiné ou o ano em que Tutancâmon se tornou faraó do Antigo Egito. Imagino que esses conhecimentos ainda serão de extrema importância em algum momento da minha vida, mas tão importantes quanto teriam sido os conhecimentos sobre Planejamento Financeiro, só que essa matéria eu não tive. E você provavelmente também não. Eu não entendo o porquê dessa matéria não ser considerada obrigatória em todas as escolas. Na minha opinião, a falta de conhecimento deste tema é uma das maiores responsáveis pela situação em que a maioria das famílias brasileiras se encontra.

Apesar de ser óbvio, nós não fomos condicionados a gastar menos do que ganhamos e a guardar para o futuro. Pesquisas apontam que quase 60% das famílias brasileiras estavam endividadas em outubro de 2017. Eu nunca fui entrevistado, mas em algum momento eu já fiz parte dessas estatísticas. Eu já estava formado e em um bom emprego há uns 2 anos. Tinha um bom salário para um jovem solteiro. Eu sabia tudo sobre Papua e Tutancâmon, mas não sabia administrar minhas finanças. Estava com duas contas no cheque-especial, tinha dois empréstimos no banco e estava ‘rolando’ a fatura dos cartões de crédito. Sim, no plural, afinal eu também tinha feito um cartão Renner e um cartão C&A (“para ter acesso aos maravilhosos descontos e promoções de nossa loja”, foi o que disse a bela menina quando me convenceu). E o pior é que mesmo assim eu não parava de comprar.

Como eu consegui sair daquela situação? O desespero era tanto que fui pedir um empréstimo a um santo amigo. Ao invés de me emprestar dinheiro ele me deu conhecimento. Aquele mesmo que eu não tive na escola. Começamos cortando todos os cartões, literalmente, passei a tesoura em todos, e com isso acabei com a farra das compras parceladas. A partir daí, ele me ensinou uma sequência de passos tão simples, mas que por algum motivo parece que 60% das famílias não seguem:

  1. Registre seus gastos – O primeiro passo foi saber quais eram os meus gastos mensais. É claro que eu não sabia. Não queria nem olhar o tamanho das dívidas. Essa foi a primeira grande sacada. Por alguns meses eu comecei a anotar cada centavo que eu gastava todos os dias.
  2. Classifique as despesas – Com aquelas informações em mãos, o próximo passo foi separar os gastos por categorias como moradia, transporte, alimentação, lazer, etc. Além disso, identifiquei quais gastos eram fixos, como aluguel, e quais eram variáveis, como lazer.
  3. Reduza as despesas – Depois disso foi a hora de fazer escolhas. Eu não podia continuar com um gasto mensal maior do que o meu salário. Não foi fácil, tive que cortar muita coisa. Coisas que eu achava essenciais, mas que depois de algum tempo não fizeram a menor falta.
  4. Renegocie as dívidas – Nesse momento eu já sabia o quanto iria sobrar todo mês para pagar as dívidas dos cartões de crédito e do cheque-especial. Foi a hora de renegociar essas dívidas com os bancos. Fiquei surpreso ao ligar e descobrir que os bancos estavam dispostos a negociar, reduzindo o valor total, mudando prazos para quitação, etc. Chegamos a um valor mensal que caberia no meu orçamento.
  5. Poupe mensalmente – O último passo, e o mais prazeroso, foi o que deu início a essa jornada para “A Tal Independência Financeira”. Aos poucos foi possível criar uma nova categoria na minha planilha, a categoria chamada poupança. Eu passei a guardar um valor mensalmente. A grande lição foi não esperar chegar ao final do mês para guardar o que sobrava. Como eu já sabia o quanto eu ganhava e qual era minha média de gastos mensais, foi fácil calcular o quando deveria ir para a categoria poupança logo no primeiro dia em que o salário era depositado (só para não cair em tentação).

Não foi fácil e nem de um dia para o outro. Talvez esses passos sejam óbvios para você. Para mim não eram. Sei que para muitas outras famílias também não serão. Se o texto ajudar pelo menos uma família, eu terei cumprido a promessa que fiz ao meu amigo de multiplicar esse conhecimento.

Ah, e para quem não lembra, Papua Nova Guiné tem atualmente (em 2017) 8,1 milhões de habitantes. E sobre Tutancâmon? Dizem que ele se casou aos 8 anos com sua meia-irmã e assumiu o trono por volta de 1336 a.C. O coitado morreu com 19 anos e não deve nem ter tido tempo de aproveitar a sua poupança. De qualquer forma, gravem bem isso, ainda deve ser útil algum dia.

10 respostas em “Primeiros passos para a independência

  1. Pingback: O Procrastinador do Futuro | A Tal Independência Financeira

  2. Pingback: Reserva de Emergência | A Tal Independência Financeira

  3. Rodrigo, fale sobre diversificação nos investimentos. Com a Selic caindo é importante correr algum risco (controlado). Muitos aplicam em poupança ou fundos de bancos que remuneram mal. Fale sobre o milagre do anatocismo (juro sobre juro em juros compostos)

    • Cazoni, esses são exatamente os tópicos que eu vou abordar nos próximos textos, agora que já falamos sobre como sobrar para poupar. Continue acompanhando e contribuindo!

      • Tal qual o Wagner Ceullin, porém um pouco mais cedo, de 1979 a 1981 tive a oportunidade de estudar técnicas comerciais da 6º a 8º series do extinto Primeiro grau . Esta matéria , que também incluia um escritorio modelo, meu de um pouco mais de visibilidade do mundo corporativo e também de finanças pessoais, mas realmente isto ficou no passado e pelo que acompanhei da Educação da minha filha, nada com relação ao assunto esteve nas suas grades desde o inicio até agora (já vai para a faculdade).

  4. Me identifiquei bastante com o seu artigo. Antes tarde do que nunca, mudei meu comportamento financeiro há uns 2 anos e estou orgulhosa com a minha disciplina $$$$ … Parabéns e continuo por aqui acompanhando o seu blog !

  5. Ótimo artigo (assim como os outros anteriores). E por falar em começar cedo, um detalhe interessante é quando eu cursei a 7ª série (em 1991) havia uma disciplina chamada Técnicas Comerciais, que logo foi extinta (acredito que você já não a teve). Apesar de ter 13 anos na época, os conceitos rudimentares que vi acabaram influenciando fortemente minha relação com dinheiro e investimentos. Deveria ainda constar dos currículos. Então já pode organizar o abaixo assinado! rsrsrs

    PS: de acordo com estudos recentes desenvolvidos (2013), parece, que o Rei Tut morreu atropelado por uma carruagem (fonte: G1). Talvez estivesse indo ao banco conferir o extrato…

    • Técnicas Comerciais não tinha mais na minha época. Lembro de Educação Moral e Cívica e OSPB (Organização Social e Política Brasileira), mas passava longe de finanças pessoais. Se tivermos muitos comentários nesse post eu imprimo e levo no MEC.

  6. Mais uma vez um texto bem leve e de fácil entendimento. Parabéns. Isso desmistifica o tema da independência financeira.

    Aproveito para deixar aqui registrado meus sinceros agradecimentos por todas as dicas e esclarecimentos realizados sobre aplicações financeiras durante o curto, porém divertido, tempo em que fizemos parte da mesma equipe de corrida.
    Muitas dessas dicas atualmente coloco em pratica na minha vida financeira.

    Vlw. E continue com seu blog!

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